Em contêineres, 'escolas de lata' instaladas têm estrutura precária e representam risco

Contêineres são usados como salas de aula — Foto: TVCA/ Reprodução
O governo de Mato Grosso alugou 110 contêineres para nove escolas da capital e do interior, por falta de salas de aula. No entanto, as estruturas não têm manutenção e nem foram vistoriadas pelo Corpo de Bombeiros para atestar a segurança e, o que era para ser uma solução, virou um problema. As estruturas são conhecidas como 'escolas de lata'.

O resultado desta combinação é o calor insuportável, aulas canceladas e alunos abandonando os estudos.

Na Escola Municipal José Pedro Gonçalves, em uma comunidade rural em Rosário Oeste, um terço dos alunos abandonou os estudos e o motivo, segundo os pais, foi a estrutura.

"Ela não quer mais estudar, já abandonou a escola", disse Andrelino Rondon, pai de uma aluna que desistiu dos estudos.

Até 2016, os alunos estudavam em um prédio de alvenaria, nos períodos matutino e vespertino, mas a prefeitura resolveu economizar no transporte e tirou os ônibus da tarde. Os estudantes passaram, então, a dividir as salas. Duas turmas dentro de cada uma.

Para impedir que isso continuasse acontecendo, o governo do estado resolveu encontrar uma solução: alugou os contêineres e os transformou em salas de aula.

A escola também não tem refeitório, nem biblioteca, e os banheiros são precários. Não têm nem porta. Alguns alunos fazem as necessidades no mato e outros esperam até chegar em casa. "Meu filho fez cocô no ônibus, porque chegou em casa, e perguntei porque ele não foi ao banheiro e ele disse que ficou com vergonha. A realidade aqui é triste", afirmou.

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Ensino Público (Sintep), Valdeir Pereira, disse que as condições precárias também prejudicam os funcionários. "O profissional acaba ficando doente e saindo da escola na qual deveria atuar", contou.

Em Cuiabá, na Escola Estadual Professora Hermelinda de Figueiredo, as estruturas de metal são usadas como sala de aula para 160 alunos, depois que uma tempestade destelhou metade da escola, em outubro de 2017.

Na época, a previsão era de que a reforma durasse seis meses e, quase um ano e meio depois, os buracos no teto ainda continuam. A empresa, responsável pelos contêineres, alega que não recebe do governo desde julho do ano passado. Por causa disso, não faz nenhuma manutenção. O resultado é fiação exposta, ar-condicionado caindo aos pedaços e chuva dentro da sala de aula.

As paredes são cobertas com PVC, um tipo de plástico sem isolamento térmico, e o teto, com placa de isopor. Toda a estrutura é inflamável. "Tenho medo de fogo, tenho medo de tudo, porque tudo ali é perigoso. Se pegar fogo, vai correr para onde? Só tem uma porta, então é uma insegurança total", afirmou Cristiane da Silva Barros, mãe de um aluno.

Nenhum dos contêineres instalados em Mato Grosso foi vistoriado pelo Corpo de Bombeiros. "Há vários riscos ali com relação a incêndio. A gente vê materiais combustível de toda ordem, a gente não vê ali dispositivos básicos de segurança", disse o coronel do Corpo de Bombeiros, Roger Ramos Martini.

A secretária estadual de Educação, Marioneide disse que vai encaminhar uma equipe técnica nas unidades de ensino para verificar as estruturas. "Vamos verificar dentro das possibilidades atuais da secretaria que medidas paliativas nós podemos tomar", declarou.

O pediatra Arlan Azevedo Ferreira, afirmou que as crianças que ficam por muito tempo em condições insalubres durante um período prolongado, teoricamente, terá uma performance escolar reduzida. "Então isso tem uma marca que vai ficar para o resto da vida dela", disse.

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.