O ex-presidente Lula concede entrevista exclusiva à Folha de São Paulo e ao jornal El País, na sede da Polícia Federal, em Curitiba (PR) - 26/04/2019 © Marlene Bergamo/Folhapress
Após 580 dias preso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou nesta sexta-feira, 8, a Superintendência da Polícia Federal em Curitiba, onde estava detido para cumprir a pena de 8 anos, 10 meses e 20 dias imposta a ele no processo da Operação Lava Jato referente ao tríplex do Guarujá (SP). Lula é aguardado por militantes do PT e de movimentos ligados ao partido para atos em Curitiba e em São Bernardo do Campo (SP), seu berço político.

Ao longo de seu período na prisão, Lula esteve custodiado em uma sala transformada em cárcere e sem grades. Para quem entra, a primeira visão era a da cama, ao lado da qual quatro cadeiras circundavam uma mesa redonda com livros empilhados e folhas de anotações. Fixada à parede, uma TV de plasma transmitia apenas canais abertos e, ao lado do aparelho, um armário de madeira onde o ex-presidente guardava suas roupas — o petista normalmente usava chinelos, bermuda e camiseta. Atrás do armário, uma divisória separa o quarto-sala do banheiro, onde há um boxe com chuveiro elétrico, uma pia e um vaso sanitário. O espaço ainda recebeu uma esteira ergométrica, usada por Lula para se exercitar.

Conforme estimativa da PF em abril de 2018, o custo mensal do aparato era de 300.000 reais mensais, cifra que poderia totalizar em 5,8 milhões de reais o custo da “operação Lula” na sede da corporação desde que ele foi preso.

Lula recebia visitas frequentes dos quatro filhos, Fábio Luiz, Sandro Luís, Luís Cláudio, Marcos e Lurian, noras, netos e da namorada, a socióloga Rosângela da Silva, a Janja, com quem ele está decidido a se casar – o petista ficou viúvo em fevereiro de 2017, quando a ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva morreu vítima de um AVC.

Na cadeia, o ex-presidente se tornou um leitor assíduo. Segundo o Instituto Lula, a lista de livros lidos por ele no período inclui Homo Deus (Yuval Harari), A Elite do Atraso – Da Escravidão à Lava Jato (Jessé Souza), Laika (Nick Abadzis), Os Beneditinos (José Trajano), O Amor nos Tempos do Cólera (Gabriel Garcia Márquez), Vá, Coloque Um Vigia (Harper Lee), Feminismo Em Comum – Para Todas, Todes E Todos (Márcia Tiburi), O Último Cabalista de Lisboa (Richard Zimler), Um Defeito de Cor (Ana Maria Gonçalves), Dois Cigarros (Flávio Gomes), Quem Manda No Mundo? (Noam Chomsky), A Poeira e a Estrada (Maciel Melo), O Voto do Brasileiro (Alberto Carlos Almeida) e O Sol na Cabeça Geovani Martins), entre outros.

Enquanto abrigou o primeiro ex-presidente da República preso por crime comum, a Superintendência da PF virou ponto de peregrinação de intelectuais e personalidades de esquerda, além de políticos estrangeiros e brasileiros – alguns dos quais, habilitados como advogados dele, tinham acesso mais amplo, como a presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, o deputado estadual Emídio de Souza (PT-SP), os ex-deputados federais Wadih Damous (PT-RJ) e Luiz Eduardo Greehalgh (PT-SP) e o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão.

Passaram pela sede da PF em Curitiba a ex-presidente Dilma Rousseff, o presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, e os ex-presidentes Pepe Mujica, do Uruguai, e Ernesto Samper, da Colômbia, além do ex-líder do partido alemão SPD Martin Schulz. Os governadores da Bahia, Rui Costa (PT), do Piauí, Wellington Dias (PT), e do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB) também visitaram o ex-presidente, assim como os ex-ministros Celso Amorim e Aloizio Mercadante, deputados federais, senadores e sindicalistas.

Fora da política, foram a Curitiba e se encontraram com Lula dois vencedores do prêmio Nobel da Paz, o indiano Kailash Satyarthi, laureado em 2014, e Adolfo Pérez Esquivel, premiado em 1980, assim como os cantores e compositores Chico Buarque e Martinho da Vila e o ator americano Danny Glover. O petista também recebia visitas de líderes de diversas religiões, como padres, pastores, monges e um pai de santo.

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Mortes de familiares

Lula perdeu dois familiares enquanto esteve preso em Curitiba: seu irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, de 79 anos, morto em janeiro de 2019; e seu neto Arthur Araújo Lula da Silva, de 7 anos, morto em abril de 2019.

No caso de Vavá, vítima de um câncer no pulmão, o ex-presidente não acompanhou velório e sepultamento. A juíza Carolina de Moura Lebbos, responsável pela execução penal do petista, negou pedido dele para ir às cerimônias, em São Bernardo do Campo, após pareceres negativos da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, que alegaram problemas logísticos para o deslocamento do petista e riscos de segurança. Minutos antes do enterro, o presidente do STF, Dias Toffoli, permitiu que o ex-presidente encontrasse os familiares, o que já não era possível.

Surpreendido pelo falecimento de Arthur, filho de Sandro Luís Lula da Silva, o ex-presidente foi autorizado pela magistrada e deixou a cadeia para ir ao velório, também em São Bernardo. A informação inicial era de que a causa da morte da criança havia sido meningite meningocócica, retificada um mês depois, quando se descobriu que Arthur fora vítima de uma infecção generalizada causada pela bactéria Staphylococcus aureus.

O ex-presidente Lula retorna para a Superintendência da Polícia Federal, em Curitiba (PR), após participar do velório de seu neto, Arthur Lula da Silva – 02/03/2019 © Ricardo Stuckert Filho/Instituto Lula/Reuters
Eleição de 2018

Enquadrado pela Lei da Ficha Limpa e impedido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de concorrer à presidência da República na eleição de 2018, Lula acompanhou da prisão a vitória do presidente Jair Bolsonaro sobre o “plano B” do PT, Fernando Haddad, registrado inicialmente como candidato a vice do ex-presidente.

Durante o primeiro turno, o horário eleitoral do candidato petista, que teve como vice a ex-deputada Manuela D’Ávila (PCdoB), explorou fartamente a imagem de Lula, com vídeos gravados antes da prisão e o slogan “Haddad é Lula, Lula é Haddad”.

A estratégia de transferência de votos do ex-presidente, líder das pesquisas de intenção de voto que levavam seu nome, mostrou-se bem sucedida e levou Fernando Haddad ao segundo turno contra Bolsonaro. Na parte decisiva da disputa presidencial, Lula desapareceu das peças de propaganda do ex-prefeito, em busca do eleitor de centro.

Mesmo solto pela decisão do STF, Lula continua inelegível. Ele, no entanto, pode atuar politicamente e participar normalmente de caravanas e atos políticos, como planeja o PT.

Quase solto duas vezes

Antes de deixar a cadeia em função da decisão do STF, o ex-presidente esteve em vias de ser solto em duas ocasiões, mas continuou preso.

Em julho de 2018, o desembargador Rogério Favreto, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), atendeu a um habeas corpus movido pela defesa de Lula e mandou soltá-lo, citando como “fato novo” a candidatura dele à presidência. A decisão foi tomada no dia 8 de julho, um domingo, durante o plantão judiciário.

A decisão provocou a reação do então juiz Sergio Moro, responsável pela Operação Lava Jato na primeira instância, que, mesmo de férias, determinou à Polícia Federal que não cumprisse a ordem enquanto o relator da Lava Jato no TRF4, João Pedro Gebran Neto, não se manifestasse. Favreto, no entanto, emitiu nova decisão reafirmando a determinação para soltar Lula e pedindo a investigação de Moro pelo Conselho Nacional de Justiça por infração funcional ao atuar para o não-cumprimento de decisão de instância superior.

Na sequência, Gebran Neto invocou para si o caso e desfez o que o colega Favreto tinha decidido. Este, por sua vez, não aceitou, disse que não era subordinado a Gebran e, na sua terceira decisão sobre o caso, reiterou a determinação para a PF soltar o ex-presidente. A guerra de decisões foi encerrada pelo então presidente do TRF4, desembargador Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz, que decidiu que quem tem o poder de decidir sobre o caso é o relator.

Em 19 de dezembro de 2018, último dia antes do recesso do Judiciário, o ministro do STF Marco Aurélio Mello concedeu uma liminar e determinou que todos os réus presos após condenações em segunda instância no TRF4 fossem soltos, o que incluía Lula. A decisão foi derrubada no mesmo dia pelo presidente do Supremo, Dias Toffoli.

FONTE: VEJA.COM
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