Se o novo coronavírus é transportado pelo ar, por que desinfectar superfícies?

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Em todo o mundo, as pessoas seguem borrifando álcool, ensaboando e limpando superfícies com o objetivo de matar o coronavírus. Mas cada vez mais cientistas dizem que há pouca ou nenhuma evidência de que superfícies contaminadas podem espalhar a Covid-19. Em espaços fechados e lotados, como aeroportos, dizem eles, o vírus exalado por infectadas permanece no ar e é uma ameaça muito maior.

Lavar as mãos com sabão ou álcool ainda é incentivado para impedir a propagação do vírus, mas esfregar as superfícies em ambientes fechados tem pouco efeito, dizem especialistas.

— Na minha opinião, muito tempo, energia e dinheiro são desperdiçados na desinfecção de superfícies. E, mais importante, desviam atenção e recursos da prevenção da transmissão aérea — alerta. Kevin P. Fennelly, especialista em infecção respiratória do United Institutos Nacionais de Saúde dos Estados.

Falsa sensação de segurança

Alguns especialistas sugerem que Hong Kong, cidade com 7,5 milhões de habitantes, e com histórico de surtos de doenças infecciosas, é um estudo de caso para o tipo de limpeza de superfície que dá uma falsa sensação de segurança sobre o coronavírus.

O aeroporto de Hong Kong usou um aparelho de "desinfecção de corpo inteiro" semelhante a uma cabine telefônica para os funcionários nas áreas de quarentena. O dispositivo faz parte de um esforço para tornar o aeroporto um “ambiente seguro para todos os usuários”.

Essas ações podem ser reconfortantes para o público, porque parecem mostrar que as autoridades locais estão lutando contra a covid-19. Mas, para Shelly Miller, especialista em aerossóis da Universidade do Colorado, nos EUA, o tal aparelho não faz sentido para controlar infecções.

Segundo Miller, os vírus são emitidos por meio de atividades que espalham gotículas respiratórias, como falar, respirar e tossir. Além disso, sprays desinfetantes em geral são feitos de produtos químicos tóxicos que podem afetar a qualidade do ar interno e a saúde humana.

— Não consigo entender por que alguém pensaria que desinfetar uma pessoa inteira reduziria o risco de transmissão do vírus — disse a pesquisadora.

Evidências em contrário

Uma série de doenças respiratórias, como o resfriado ou a gripe, são causadas por germes que podem se espalhar de superfícies contaminadas. Portanto, quando o coronavírus surgiu, parecia lógico que esse era seu principal meio de disseminação.

E estudos logo descobriram que o vírus parecia sobreviver em algumas superfícies, incluindo plástico e aço, por até três dias. A Organização Mundial da Saúde (OMS) também enfatizou a transmissão de superfície como um risco — e disse que a disseminação pelo ar era uma preocupação apenas em certos procedimentos médicos que produzem aerossóis.

Mas as evidências científicas de que o vírus poderia permanecer por horas em pequenas gotículas no ar estagnado, infectando as pessoas enquanto elas inalam (especialmente em espaços fechados, lotados e com pouca ventilação) começaram a crescer.

Em julho, um ensaio na revista médica "The Lancet" argumentou que alguns cientistas exageraram o risco de infecção em superfícies pelo novo coronavírus sem considerar estudos de patógenos semelhantes.

— É uma evidência extremamente forte de que, pelo menos para o vírus SARS original, a transmissão em superfícies foi muito pequena —disse o autor do ensaio, o microbiologista Emanuel Goldman, da Rutgers University. — Não há razão para esperar que o parente próximo SARS-CoV-2 (o novo coronavírus) se comporte diferente.

Poucos dias após a publicação do artigo de Goldman, mais de 200 cientistas procuraram a OMS para reconhecer que o coronavírus pode se espalhar pelo ar em qualquer ambiente interno. A agência então reconheceu que a transmissão de aerossol interno pode levar a surtos em locais internos mal ventilados, como restaurantes e escritórios.

Mas a essa altura, a paranóia de tocar em qualquer coisa, desde corrimãos até sacolas de compras, havia disparado. E o instinto de esfregar superfícies como precaução da Covid-19 já estava profundamente enraizado.

Mas e o ar?

Em Hong Kong, a flexibilização de medidas de isolamento tem preocupado especialistas e chamado a atenção para uma questão global. Além de medidas de proteção em restaurantes, por exemplo, eles temem a convivência em escritórios por conta da possibilidade de as gotículas do coronavírus se espalharem pelas aberturas de ventilação desses locais.

— As pessoas estão tirando as máscaras para almoçar e no trabalho. Mas lembre-se: o ar que você está respirando é basicamente comunitário — disse Yeung King-lun, professor de engenharia química e biológica da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong.

Fonte: iG SAÚDE