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Trabalho no pós-pandemia será híbrido, flexível e conectado

Para especialistas, desafio de empresas e trabalhadores será manter e até maximizar a produtividade em novos espaços

09/05/2021 01h06
Por: Redação Fonte: R7 - Angélica Sales, Do R7
Centro de Inteligência da BlueTrade, em Ribeirão Preto (SP): respeito às regras sanitárias na retomada das atividades - (Foto: Divulgação)
Centro de Inteligência da BlueTrade, em Ribeirão Preto (SP): respeito às regras sanitárias na retomada das atividades - (Foto: Divulgação)

Exigências dos tempos de pandemia, o longo período de isolamento, as restrições de circulação e as novas regras de convívio social transformaram para sempre os modelos convencionais de trabalho. De uma hora para outra, empresas e trabalhadores tiveram que virar a chave e criar jeitos diferentes de executar tarefas e se relacionar no ambiente profissional. Após mais de um ano de crise sanitária, especialistas de diferentes áreas convergem para uma mesma perspectiva: o trabalho pós-pandemia será híbrido, flexível e conectado.

Para entender essa projeção, é preciso retroagir ao primeiro efeito da pandemia no trabalho, que foi a adoção do home office em todas as atividades que permitiram o formato. No Brasil, segundo a Pnad Covid-19 do IBGE (Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 9,1% dos trabalhadores estavam atuando de forma remota em novembro de 2020, o equivalente a 7,3 milhões de pessoas. O índice subiu para 28,7% entre os brasileiros com nível superior completo ou pós-graduação.

Entre as empresas, pesquisa realizada pelo ADP Research Institute em dezembro de 2019, ou seja, antes da pandemia, apontou que  somente 25% delas contavam com políticas de home office formalizadas. Em maio de 2020, novo levantamento revelou que 44% das organizações tinham adotado modelos de teletrabalho.

“A partir daí, pudemos ver um número cada vez maior de acordos coletivos com cláusulas específicas sobre teletrabalho. Na América Latina, alguns países inclusive já publicaram legislação específica, como a Argentina”, explica Mariane Guerra, vice-presidente de Recursos Humanos da ADP na América Latina.

Mariane acredita que, à medida que o fim da pandemia se avizinhe, tanto empresas quanto funcionários vão voltar, lentamente, para uma situação intermediária. “Modelos de trabalho híbridos devem prevalecer. Além disso, tenho a impressão de que a força de trabalho eventual deve ganhar força”, afirma.

Segundo a executiva de RH, com as recentes políticas de flexibilização de jornadas e salários, as pessoas se deram conta que não existe 100% de estabilidade mesmo nos modelos tradicionais de trabalho. “Isso pode tornar alguns trabalhadores mais corajosos para empreender”, diz Mariane.

'Coisa do passado'

Para os especialistas, novas formas de encarar o trabalho, mesmo remotamente, devem dar o tom no pós-pandemia. Segundo o professor André Miceli, coordenador do MBA de Marketing e Negócios Digitais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), até o modelo de home office "engessado" que conhecemos na pandemia é “coisa do passado”.

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“O que vem para ficar ficar é o trabalho híbrido. E não necessariamente em casa, mas sim em qualquer lugar. Viajando, num café, na casa do colega. Conectado, o funcionário pode trabalhar de onde quiser, seguindo o modelo 'anywhere work' (ou 'anywhere office'), uma tendência da cultura organizacional. Por meio dele, o mundo inteiro vira uma opção."

Miceli coordenou uma edição especial sobre home office para a publicação de tecnologia e negócios MIT Technology Review Brasil. O levantamento, realizado em dois momentos (abril de 2020 e dezembro de 2020), ouviu cerca de 2 mil pessoas que adotaram o teletrabalho. Entre achados interessantes, o estudo apontou os dois principais problemas enfrentados na modalidade.

Senso de pertencimento

A primeira grande dificuldade detectada no home office foi o prejuízo ao senso de pertencimento. “Os funcionários, especialmente aqueles contratados durante a pandemia, demoram para se sentir parte da organização”, explica Miceli. "O senso de pertencimento é fundamental para a construção de cultura. Uma empresa sem cultura é mais fraca. Os líderes terão, portanto, que construir redes para que esses grupos tenham a cara da empresa.”

Outra queixa dos funcionários foi a dificuldade de estabelecer um senso de confiança entre a equipe, um atributo importante para a produtividade. “Não tem mais cafezinho, não tem corredor, almoço ou happy hour. Os colegas só se encontram no zoom e perdem a oportunidade de criar vínculos sociais”, diz o professor da FGV. "O desafio do líder será, portanto, criar situações que façam com que as pessoas se conheçam, para criar esse senso de confiança entre elas."

A pesquisa coordenada por Miceli mostrou, ainda, que a performance no trabalho remoto está diretamente relacionada a traços de personalidade. “Funcionários mais conscienciosos, do tipo disciplinado, têm mais facilidade no formato, assim como indivíduos com maior abertura a situações novas", diz. “Já pessoas extrovertidas não performam tão bem, pois sentem falta do convívio com os colegas."

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O modelo híbrido, que mistura espaços de trabalho corporativos e home office, numa frequência de 1 ou 2 dias em casa e o restante da semana no escritório, foi considerado o mais adequado por 100% dos entrevistados na pesquisa da MIT Technology Review Brasil. Para Miceli, chama a atenção o fato de que mesmo os jovens com até 25 anos, grupo supostamente mais afeito à conectividade, façam questão de manter o trabalho presencial algumas vezes por semana.

O professor da FGV lembra ainda que, embora o home office pareça uma alternativa muito econômica para as empresas num primeiro momento, isso não é necessariamente verdadeiro. “Em geral, os funcionários trabalharam com seus próprios equipamentos eletrônicos, suas cadeiras, seu plano de internet", diz.

"Mas existe uma pressão social para que isso seja organizado, o que pode trazer uma instabilidade para o modelo que se estabeleceu. Quando o sistema jurídico organizar o trabalho remoto, definindo, por exemplo, que as empresas devem equipar os espaços por sua conta, pode não ser uma opção tão atrativa."

Projeto de lei

A necessidade de regulamentar o home office no Brasil é justamente um dos desafios da advogada Fernanda Perregil, especialista em direito trabalhista e uma das autoras do projeto de lei 5.581/2020, que dispõe sobre o teletrabalho e propõe alterações na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Entre direitos e deveres de cada parte, o texto estabelece, por exemplo, a criação de códigos de conduta, a adaptação do espaço de trabalho e a proteção de tutelas especiais (como estagiários, pessoas com deficiência e idosos).

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Para garantir que o ambiente profissional seja mais justo e saudável, Fernanda acredita que o primeiro passo para as empresas é adotar códigos de conduta, ou seja, políticas internas com regras específicas para o teletrabalho. "Há muitas possibilidades, dependendo do modelo de negócio: algumas organizações interrompem o sistema após determinado horário, outras proíbem que gestores e funcionários sejam acionados fora do expediente... O importante é que o tempo de descanso previsto em lei seja respeitado e que, no final, todos conquistem o direito à desconexão."

Proteção da saúde mental

O direito à desconexão é uma nova peça no tabuleiro do home office e promete movimentar as discussões acerca do tema. Para a advogada, trata-se de condição fundamental para preservar a saúde mental do funcionário no período de trabalho remoto. "A tecnologia propiciou muita eficiência em termos de produtividade, mas ao mesmo tempo invadiu a vida pessoal do trabalhador", diz a advogada. “Por isso, é vital que haja regras muito claras para que esse limite não seja ultrapassado.”

Fernanda também destaca outro ponto de discussão urgente: a organização da jornada de trabalho, não por acaso uma das alegações mais recorrentes no boom de ações trabalhistas impetradas durante a pandemia. “Pagamento de horas extras e questões de ergonomia também têm sido levantadas na Justiça”, diz.

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Apresentado em dezembro pelo deputado Rodrigo Agostinho (PSB-SP), o projeto de lei que a advogada ajudou a elaborar está tramitando na Câmara dos Deputados apensado a outras propostas que versam sobre o mesmo tema. De acordo com a assessoria de imprensa da Casa, a matéria está na Comissão de Trabalho, Administração e Serviço Público aguardando parecer do relator, deputado André Figueiredo (PDT-CE).

Funcionário da Vitacon durante home office: empresa vai adotar modelo híbrido permanentemente
Funcionário da Vitacon durante home office: empresa vai adotar modelo híbrido permanentemente - (Foto: Divulgação)

Rodas de conversa e uma nova sede

A percepção de que a pandemia exigiria uma nova e inovadora forma de trabalhar norteou a Vitacon, incorporadora imobiliária com foco na construção de prédios inteligentes, desde o início. No ano passado, a empresa aderiu ao home office para todos os colaboradores do escritório e, atualmente, está vigorando o modelo híbrido, formato que deve prevalecer no pós-pandemia. 

A decisão pelo trabalho híbrido decorre justamente da bem-sucedida experiência da Vitacon durante a pandemia. Por essa razão, a empresa decidiu apostar em uma nova sede, atualmente em obras. Projetado especialmente para atender à nova realidade, o espaço contará com menos estações de trabalho, mais áreas de descompressão e de reuniões e um café aberto para a cidade. A inauguração do prédio, localizado no Jardim Paulista, em São Paulo, está prevista para julho.

"Nossa ideia é oferecer um local de trabalho no esquema de coworking, sem posições fixas e mais voltado para encontros e troca de ideias", diz Ariel Frankel, CEO da Vitacon. "O modelo híbrido traz grandes vantagens para todos os colaboradores. Não perdemos o conforto de trabalhar em nossas próprias casas, mas contamos com um espaço preparado para os dias em que o trabalho presencial é necessário", destaca.

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Além disso, a saúde física e mental mencionada anteriormente foi outra preocupação da incorporadora. "Buscamos ajuda de profissionais que realizaram rodas de conversa e forneceram ferramentas para autoconhecimento, equilíbrio e controle", explica Frankel. Em paralelo, atividades descontraídas foram propostas, promovendo integração e diversão. "Incentivamos a prática de atividades físicas, com ações semanais para que os profissionais pudessem fazer exercícios sem sair de casa, com toda a segurança."

Investimentos por videoconferência

Desde o início da pandemia, em cumprimento às diretrizes estabelecidas pelo governo, a BlueTrade, escritório de investimentos com unidades no interior de São Paulo e em outros três estados e no Distrito Federal, implementou o home office para todos os colaboradores.

“Os agentes autônomos sempre tiveram maior liberdade de transitar a distância, já que tinham por rotina fazer visitas presenciais aos clientes”, conta Joy Oda, superintendente de inteligência da BlueTrade. “Inicialmente, foi uma tarefa mais simples para a nossa equipe do que para o cliente mais conservador, que aos poucos se familiarizou com as videoconferências.”

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À medida que as restrições impostas pela pandemia foram flexibilizadas, parte do time dos escritórios voltou ao trabalho presencial, sempre cumprindo o distanciamento, o uso de máscaras e a higienização dos ambientes. “As mudanças foram assimiladas rapidamente. E a gente entende que, com o tempo, o modelo híbrido de trabalho vá prevalecer”, afirma o executivo.

Prova da sintonia com os novos tempos é que a BlueTrade inaugurou em Franca (SP), em dezembro, uma unidade exclusiva para o atendimento digital dos clientes. O espaço abriga a equipe de renda variável (mesa de operações da Bolsa de Valores) e foi projetado com vistas à expansão da empresa. “Por incrível que pareça, vivemos um período de franco crescimento. No ano passado, dobramos o número de colaboradores e a expectativa é ampliar ainda mais os negócios”, conta Joy Oda.

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